domingo, 15 de fevereiro de 2015

NA POLÍTICA A LUCIDEZ É SUICIDA

Cristovam Buarque, senador PDT/DF
Na política, a lucidez não é sinônimo de inteligência. Em muitos momentos são antônimos. Porque a inteligência na política exige formas de oportunismo adaptado à realidade do humor social que se contrapõe à lucidez. O político muitas vezes tem de abandonar a lucidez para surfar na tendência popular ou de seus correligionários e apoiadores tradicionais. Deve abrir mão da lucidez e inteligentemente aceitar os mitos do momento, as crenças e os interesses que são ilógicos, mas são fortes.

Na política prevalece a inteligência para adaptar-se ao imediato, a lucidez sofre de um compromisso com o longo prazo; a inteligência política leva a escolher entre ser a favor ou contra em cada instante, a lucidez força pensar, levando em conta alternativas; na política escolhe-se com certezas, a lucidez reflete no meio de dúvidas.

A inteligência política é o caminho para chegar e ficar no poder mudando o político para não mudar a política, a lucidez tende a manter o político na oposição. 

Salvo, quando a história conspira e faz coincidir as necessidades da realidade com o discurso lúcido. Mas isso só ocorre em momentos de graves crises e muito raramente durante o curto período de vida do político que usa a lucidez. Por isso, se ele é lúcido tem de estar preparado para não estar no poder, não ter seguidores, no máximo leitores. E fazer sua opção pela lucidez, até as últimas consequências do suicídio político. E estar pronto para na sua lápide escreverem: "Aqui jaz um político lúcido que não se adaptou a ser liderado pelas ortodoxas de seus próximos, mas não conseguiu ser líder de novas idéias. Descanse em paz com sua consciência".

Até lá ele deve estar pronto para assumir liderança e poder, caso a história conspire a favor de suas idéias não corrompidas pelas tentações do humor popular, das preferências de seus apoiadores e correligionários e mesmo da opinião pública. Preferindo vaias por tentar explicar suas posições complexas e heterodoxas, do que aplausos por submeter-se às posições simples e ortodoxas.
Disposto ao suicídio que mata o lúcido, mas sem perder a perspectiva de que a história pode fazer dele um líder quando as inteligências oportunistas fracassarem.

A inteligência leva ao poder para não mudar, a lucidez só chega ao poder quando a história quer mudanças.

* Cristovam Buarque - senador PDF/DF


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